Quando um povo vive uma pobreza extrema num país rico em recursos naturais, ocorre uma ruptura profunda. As pessoas deixam de considerar esses recursos como os seus. Afinal, nunca os beneficiarei. Como consequência, não há reagem quando esses bens são saqueados.
Isso não resulta apenas de uma percepção distorcida. Trata-se de uma realidade material e política consolidada ao longo de décadas.
Recursos naturais sem papa
Na Venezuela, o petróleo e a riqueza nunca chegaram à maioria da população. Por isso, para muitos cidadãos, esses recursos não representam esperança nem futuro.
Assim, quando ocorrem intervenções externas, a prioridade não passa pela defesa do petróleo. O foco é outro: libertar-se de Nicolás Maduro.
A prioridade é o fim da repressão
Para quem vive numa ditadura, o objetivo imediato é simples e urgente. Acabar com o medo. Por fim à perseguição política. Sobreviver.
Nessas situações, ninguém perde tempo com análises geopolíticas. As pessoas sonham com liberdade, com dignidade e com o direito de pensar sem medo de esperança.
A ilegalidade da intervenção americana
Do ponto de vista do direito internacional, a atuação dos Estados Unidos é inaceitável. Nenhuma democracia sólida pode ignorar esse facto.
Por isso, Portugal e a Europa devem condenar essa ação. O multilateralismo precisa continuar a ser uma escolha coletiva. A lei do mais forte não pode voltar a normalizar-se nas relações internacionais.
O olhar distante das democracias consolidadas
Ainda assim, causa inquietação a crítica feita, a partir de contextos democráticos, contra quem vive numa ditadura e manifestação de colapso.
Quem nunca viveu sob repressão tende a exigir racionalidade estratégica. Porém, numa ditadura, não se pensa em estratégia. Pense em sobreviver.
Os EUA não envelhecem por altruísmo
É evidente que os Estados Unidos não intervêm por compromisso com a democracia. Donald Trump não demonstra preocupação com a vida dos venezuelanos nem com a natureza do regime.
Além disso, a pobreza, a criminalidade e a desigualdade estrutural não desaparecerão como resultado direto desta intervenção.
O resposta como resposta humana
Apesar disso, para quem viveu décadas sob repressão, o primeiro sentimento é o colapso. Surge uma esperança. Mesmo que essa esperança possa ser frustrada no futuro.
Essa realidade não representa engenhosidade política. Representa uma resposta humana à opressão prolongada.
Respeitar a alegria de um povo oprimido
É legítimo criticar setores de extrema-direita que instrumentalizam a felicidade provisória do povo venezuelano. Contudo, é fundamental respeitar a alegria de quem acredita estar mais perto da liberdade.
Afinal, Nicolás Maduro é um ditador que há muito já deveria ter sido afastado do poder.

