A vandalização das linhas férreas de Sena e Machipanda continua a causar enormes danos à Empresa Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM). No episódio mais recente, dois comboios descarrilaram no distrito de Dondo, província de Sofala, entre sábado e domingo. Apesar da gravidade da situação, as autoridades confirmaram que não houve registo de mortos nem de feridos.
Este é já o quarto caso de vandalização das linhas férreas de Sena e Machipanda registado num período de apenas 34 dias. De acordo com informações da empresa, os incidentes resultam principalmente da retirada de materiais essenciais para a fixação das carris, o que comprometem diretamente a segurança da circulação ferroviária na região centro do país.
Além disso, os atos de sabotagem afetam comboios de mercadorias, o que paralisa temporariamente importantes corredores logísticos que ligam o interior do país ao Porto da Beira. Consequentemente, tanto a economia local quanto as cadeias de abastecimento prejudicam significativamente.
Sabotagem meticulosa indica conhecimento técnico da linha férrea
O primeiro caso ocorreu por volta das 23 horas de sábado, 29 de Novembro. Na ocasião, indivíduos ainda não identificados sabotaram um troço da Linha de Sena, o que provocou o descarrilamento de um comboio de mercadorias que fazia o trajecto entre Moatize e a cidade da Beira.
Horas mais tarde, já na madrugada de domingo, registou-se um segundo descarrilamento, também em Dondo. Desta vez, o comboio cumpriu o percurso entre a Beira e Manica. Novamente, a causa foi atribuída à vandalização das linhas férreas de Sena e Machipanda, com pedidos claros de interferência humana direta na infra-estrutura ferroviária.
Segundo o representante dos Caminhos de Ferro de Moçambique na zona centro, Jorge Mavissa, os danos efectuaram-se em pontos estratégicos da linha, nomeadamente no quilómetro 1-500 e no quilómetro 2. Isso demonstra um padrão de actuação que sugere conhecimento prévio sobre o funcionamento técnico do sistema.
“É uma situação de vandalismo total. Infelizmente, estas ocorrências têm sido recorrentes nos CFM. Como podem ver, tivemos dois pontos críticos atingidos, o que nos entristece bastante”, afirmou Mavissa.
Portanto, as autoridades suspeitam que os responsáveis possuíam algum grau de formação ou experiência ligada ao setor ferroviário. Ainda assim, até o momento, não há detenções nem identificação formal dos suspeitos envolvidos nestes casos recentes.
Fato curioso reforça suspeitas sobre os responsáveis
Um dado que chama atenção é que, tanto neste como em outros casos anteriores de vandalização das linhas férreas de Sena e Machipanda, os autores não levaram consigo qualquer material retirado da linha. Em vez disso, apenas removeram para provocar o colapso da estrutura.
Esse comportamento levanta dúvidas entre os especialistas, já que não se observa qualquer intenção aparente de roubo ou distribuição de materiais metálicos. Pelo contrário, o objectivo parece ser apenas uma sabotagem da infra-estrutura.
“Para ser sincero, acredite que sejam pessoas que tenham plena noção do impacto das suas acções. No entanto, não posso acusar ninguém directamente”, sublinhou Jorge Mavissa, mostrando cautela nas declarações.
Importa recordar que, nos episódios anteriores na Linha de Machipanda, envolveram alguns trabalhadores descontentes que reivindicavam o pagamento de valores acordados durante o processo de reabilitação da linha. Ainda assim, não há confirmação de ligação direta entre esses conflitos antigos e os recentes atos de destruição.
Mesmo assim, a empresa reforça que não pretende apontar suspeitos sem uma investigação sólida. Por isso, os Caminhos de Ferro de Moçambique já solicitaram a intervenção das autoridades competentes para esclarecer os factos e responsabilizar os autores.
Prejuízos milionários agravam o cenário e preocupam as autoridades
Os dois descarrilamentos mais recentes causaram prejuízos avaliados em cerca de dois milhões de dólares norte-americanos. Este valor inclui danos em locomotivas, carris, travessas, atrasos logísticos e custos de peças emergenciais.
Além do impacto financeiro direto, a vandalização das linhas férreas de Sena e Machipanda afeta a circulação de mercadorias essenciais, como carvão, produtos agrícolas e bens de primeira necessidade. Deste modo, além da empresa, também a população e os setores comerciais acabam por ser afetados.
Por outro lado, as constantes propostas no serviço ferroviário comprometem a confiança dos parceiros internacionais e dos usuários regulares desta rota estratégica. Isso pode, a longo prazo, desincentivar investimentos e enfraquecer ainda mais a economia regional.
Reposição de linha e apelo à colaboração pública
Os trabalhos de reposição completa da linha estão previstos para esta terça-feira, 2 de dezembro. Equipamentos técnicos já foram destacados para o local, onde procederam à reinstalação dos materiais de fixação e à verificação da segurança do trajeto antes do retorno das operações normais.
Paralelamente, o CFM apela à colaboração das comunidades locais para que denunciem qualquer movimento suspeito próximo das infra-estruturas ferroviárias. A empresa acredita que a vigilância comunitária pode desempenhar um papel fundamental na prevenção de novos atos de vandalismo.
Em resumo, a vandalização das linhas férreas de Sena e Machipanda deixou de ser um caso isolado e passou a representar uma ameaça real à estabilidade do sistema ferroviário nacional. Diante disso, a resposta das autoridades e da sociedade civil será determinante para travar este ciclo de destruição.

