InicioECONOMIAEscolas Privadas e a Desvalorização do Professor: Uma Exploração Silenciosa em Moçambique

Escolas Privadas e a Desvalorização do Professor: Uma Exploração Silenciosa em Moçambique

Quando a alternativa ao desemprego se transforma numa forma moderna humilhação profissional

O crescimento das escolas privadas em Moçambique é frequentemente apresentado como um sinal de progresso no sector da educação. No entanto, por trás desse aparente avanço, esconde-se uma realidade dura e pouco debatida: a exploração sistemática de professores licenciados. Na prática, estas instituições tornaram-se a única saída para muitos docentes excluídos do Aparelho do Estado, ainda que o preço pago seja a dignidade profissional.

Atualmente, existem professores licenciados a receber 2.500, 3.000 ou 5.000 meticais por mês em escolas privadas. Em contrapartida, o Estado paga cerca de 8.000 meticais como salário mínimo aos funcionários públicos. Assim, profissionais com formação superior acabam por receber menos de metade do valor oficialmente reconhecido como mínimo para sobreviver.

Salários indignos num sector essencial

Para além dos baixos salários, muitos docentes enfrentam descontos automáticos por faltas, mesmo quando apresentam justificações formais. Dessa maneira, adoecer ou resolver problemas familiares transforma-se num risco financeiro imediato. Consequentemente, o medo de perder rendimento força professores a trabalhar doentes e sob forte pressão psicológica.

Com apenas 3.000 meticais, o professor precisa pagar transporte, alimentação, crédito telefónico, vestuário e, muitas vezes, apoiar a família. Portanto, a pergunta impõe-se: como sobreviver com dignidade nessas condições? Claramente, trata-se de uma equação impossível.

Pagamento por hora e precarização do trabalho docente

Outro problema grave reside no pagamento por hora, prática comum em várias escolas privadas. Em muitos casos, o valor pago ronda os 100 meticais por aula. Como resultado, o professor perde qualquer estabilidade financeira e passa a viver numa lógica de sobrevivência diária.

Além disso, este modelo ignora completamente o trabalho pedagógico invisível, como preparação de aulas, correção de avaliações, elaboração de relatórios e acompanhamento dos alunos. Dessa forma, paga-se apenas o tempo em sala de aula, mas exige-se dedicação total fora dela.

Trabalhar apenas para não ficar em casa

Muitos professores aceitam estas condições não por escolha, mas por absoluta falta de alternativas. Num contexto de desemprego elevado, qualquer vaga torna-se valiosa, mesmo quando implica exploração. Assim, lecionar numa escola privada passa a ser apenas uma forma de evitar o ócio forçado.

Entretanto, esta realidade cria um ciclo perverso: as escolas continuam a pagar mal porque sabem que haverá sempre alguém desesperado por uma oportunidade. Consequentemente, o professor perde motivação, autoestima e esperança de progressão na carreira.

Impactos diretos na qualidade do ensino

É impossível discutir qualidade do ensino sem abordar a valorização do professor. Quando o docente vive sob pressão constante, mal remunerado e emocionalmente esgotado, o reflexo chega inevitavelmente à sala de aula. Por isso, a exploração laboral afeta diretamente o rendimento dos alunos.

Assim sendo, a precarização do professor não prejudica apenas o trabalhador. Ela compromete o futuro do país. Educação frágil produz cidadãos vulneráveis e aprofunda desigualdades sociais.

Falta de fiscalização e omissão do Estado

Neste cenário, torna-se inevitável questionar o papel do Estado. Atualmente, muitas escolas privadas operam sem fiscalização eficaz no que diz respeito às condições laborais dos professores. Por essa razão, abusos tornam-se recorrentes e normalizados.

Na minha perspetiva, nenhuma escola privada deveria pagar abaixo do salário mínimo nacional a um professor licenciado. Longe de ser radical, esta medida representa justiça social e respeito profissional. Afinal, quem educa uma nação não pode viver na miséria.

Exploração não é empreendedorismo

Rotular este modelo como “empreendedorismo educativo” é distorcer a realidade. Na verdade, pagar 2.500 ou 3.000 meticais a um licenciado configura exploração laboral. Mais grave ainda, legitima uma lógica de desvalorização do conhecimento.

Em termos históricos, esta prática perpetua uma mentalidade colonial, onde o trabalho intelectual africano vale pouco. Assim, pagar migalhas a um licenciado equivale a negar o valor da educação.

Valorizar o professor é investir no futuro

Em conclusão, valorizar o professor não constitui um favor, mas uma necessidade nacional. Sem professores respeitados, não existe educação de qualidade. Sem educação forte, não há desenvolvimento sustentável.

Enquanto a exploração continuar normalizada, o país continuará a formar profissionais sem perspetivas. Portanto, romper o silêncio tornou-se urgente, porque calar diante desta realidade também é uma forma de cumplicidade.

Please follow and like us:

1 COMENTÁRIO

  1. Estamos cansados de ser explorados, sendo que essas escolas se beneficiam muito além do necessário. Pagar um licenciado 4 000 Mt é um crime, socorro….pedimos a intervenção urgente das autoridades competentes.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Must Read

spot_img